C O V – O INÍCIO

A rececionista não sabia onde se havia de meter. Uma trapalhada daquelas era estatisticamente muito pouco provável, mas ela tinha conseguido o impossível. Tinha na sua frente oito clientes, todos marcados para a mesma hora e com um histórico completamente distinto. Depois de ter explicado aos pacientes que tinha existido um erro e que seria muito difícil serem todos atendidos naquele dia, ligou para o doutor Serafim. Tratava-se de um psiquiatra de renome, que tinha sido recomendado àquele grupo de pacientes, embora nenhum deles aparentasse precisar efetivamente da consulta. Quando ela pensava que nada podia piorar a situação, o doutor Serafim depositou-lhe no colo a bomba: Ele estava retido e não poderia atender nenhum dos pacientes, nesse dia. Quando tomaram consciência da situação o clima ficou tenso e a revolta quase estalou. No meio dos protestos de quase todos, a gargalhada de Pedro, soou como o matraquear de uma metralhadora. Os restantes calaram-se por breves instantes e de um momento para o outro estalaram numa gargalhada geral. A situação em que se encontravam era ridícula, mas não deixava de ser caricata.

A rececionista não sabia o que fazer e ver aquele conjunto de oito homens a rir a bandeiras despregadas, sem uma razão aparente, deixou-a petrificada. Tratava-se de um riso estranho e perturbador. O riso de homens loucos! Depois de dez minutos de riso quase insano, o diálogo surgiu fácil e espontâneo. Os quatro casais, desconhecidos até alguns minutos atrás, decidiram ir comer sardinhas. O arraial de Campolide ficava mesmo ali ao lado e eles abandonaram o consultório, situado nas Twin Towers, sem dar qualquer satisfação à rececionista e caminharam animados.  Após as apresentações, surgiu a primeira coincidência. Eles tinham todos 30 anos de idade!  

O restaurante estava a meio gás, mas o serviço era lento, pelo que as sardinhas demoraram a fazer a caminhada entre o assador e a mesa. Quando estas chegaram, Nuno, não resistiu a perguntar, com o seu ar fleumático.

– As sardinhas já eram cadáveres, quando saíram da grelha? Perguntou ao empregado que, pela forma desajeitada como segurava as bandejas, denunciava a sua clara falta de experiência.   

O empregado lançou-lhe um olhar austero e recriminador, enquanto os restantes se mantiveram na expetativa.

– Onde já se viu grelhar sardinhas vivas! Obviamente que estavam mortas. Respondeu o empregado com irritação.

– Claro. Tem toda a razão. Pelo tempo que demoraram a chegar à nossa mesa só podiam estar mortas! Disse Nuno, sorrindo sem mostrar os dentes.

Os restantes explodiram numa gargalhada sonora, secundada por hurras e vivas ao humor do comparsa. Depois, lançaram-se sobre as sardinhas e isso foi revelador, em parte, do seu caráter.

Nuno retirou uma sardinha da travessa, usando os talhares disponíveis para o efeito, de forma profissional. Depois, usando a faca e o garfo extraiu dois filetes com a perícia de um cirurgião e comeu-os acompanhados de salada.  Pedro desfez a sardinha, numa tentativa vã de se ver livre das espinhas, e misturou-a com as batatas, partidas em pequenos pedaços. As espinhas que sobreviveram à batalha foram retiradas enfiando os dedos na boca sem cerimónia. Ricardo, escolheu a sardinha mais queimada. Acreditava que os alimentos deviam ser bem cozinhados para se libertarem das impurezas. Acompanhou o peixe com batata e salada e lambuzou-se com pão molhado na gordura da sardinha. Vanessa, colocou duas batatas e salada no prato, regando-as com azeite e depois, tirou uma sardinha com as mãos, segurando-a com a mão esquerda e pela cabeça, enquanto usava a mão direita para lhe tirar a pele. Em seguida, deglutiu-a em dois segundos, segurando-a pela cabeça e pelo rabo. Carla e João prescindiram das batatas e colocaram uma fatia de pão no prato, depositando a sardinha em cima deste. Comeram a sardinha com as mãos e apenas utilizaram o garfo para comer a salada. No fim, deliciaram-se com o pão humedecido pela gordura das sardinhas. Rita serviu-se de batatas e salada, depois, retirou a sardinha com os seus próprios talheres e extraiu dois lombos decentes, separando-os das espinhas. Em seguida, separou a cabeça da espinha dorsal e mastigou-a, chupando-lhe o suco como quem se lambuza com um pêssego maduro. Finalmente, Vitória declarou não ser amante de sardinhas devido à quantidade de espinhas que estas tinham, tendo demorado uma eternidade a retirá-las e separando-as por categorias. Não teria sido mais criteriosa se estivesse a selecionar os clientes que entram na discoteca, que guardava com orgulho. Os homens, beberam todos vinho tinto, a jarro, com exceção do Nuno e do Ricardo que beberam vinho branco, juntamente com as mulheres.

As mulheres quiseram um doce de sobremesa e os homens ficaram-se pelo café, tendo esperado por elas, por sugestão do Nuno, embora essa não fosse uma opinião unânime. O Pedro e a Rita, brindaram o fim da refeição com um arroto, que provocou o riso de quase todos, com a exceção do Nuno e do Ricardo que fizeram um esgar de nojo.

– Pronto. Vocês já estão apresentados. Disse João, quando parou de rir.

– Apesar de já sabermos alguma coisa uns dos outros, sugiro que façamos uma apresentação mais formal. Podemos, numa frase simples, dizer o que fazemos e o que somos. Disse Nuno.

– Porque não começas tu. Respondeu Pedro, de forma acintosa.

O comentário provocou um momento de silêncio e expetativa. Nuno, sorriu de forma calma e acenou afirmativamente com a cabeça. Isso teve o condão de esvaziar a tensão que se sentara com eles à mesa.

– Pedro, de Alcochete, “acompanhante”, cavalheiro, reservado e tímido.

– Vitória, de Massamá, “porteira de discoteca”, sofisticada, direta e dura.

– Rita, de Tomar, “empreiteira”, feminina, culta e destravada.

– João, de Faro, “professor”, empreendedor, sapiente e tarado sexual.

– Carla, de Vermoim (Guimarães), “carteiro”, atleta, discreta e gay.

– Vanessa, de Mértola, “funcionária publica”, ousada, curiosa e louca por viagens.

– Ricardo, de Viseu, “advogado”, simples, conhecedor e dedicado ao próximo.

– Pedro, de Campo de Ourique (Lisboa) “malabarista de rua”, ágil, educado e simpático.

Foi uma apresentação surrealista e que colocava em evidência que, aquilo que pensamos de nós próprios está, muitas vezes, bem distante daquilo que somos efetivamente ou daquilo que os outros vêm em nós. Apesar disso, algo que eles não conseguiam descrever por palavras os unia e os levava a estar ali juntos, formando um grupo estranho, quer pela disparidade de saber, profissão e origem, quer pela coincidência de serem todos solteiros e terem a mesma idade.

Na hora de dividir a conta o caldo ia-se entornando.  Os que aparentavam ter mais dinheiro eram os mais forretas, defendendo que as contas deviam ser feitas ao cêntimo. Nessa altura, Pedro interveio.

– Que é esta porra!  Ainda se fosse eu, que sou um teso, a discutir uns cêntimos, até percebia, agora vocês? Dividam a merda da conta por oito e já está.

A maioria do grupo acenou afirmativamente e a coisa ficou assim. Saíram dali e foram para o bailarico. Apesar de uns apreciarem a dança mais do que outros, todos participaram. Foram trocando de par de forma a que ao fim da noite todos os homens tinham dançado, pelo menos uma vez, com cada uma das mulheres. Antes da noite terminar, trocaram os contatos e prometeram encontrar-se outras vezes, quem sabe até com alguma regularidade. A verdade é que tinha sido uma noite divertida para todos.

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